Assange e a liberdade na rede

O vídeo acima, faz parte de uma uma entrevista realizada pelo jornalista Jamil Chade, do jornal Estado de São Paulo, em fevereiro de 2013. Nela, o criador do WikiLeaks, Julian Assange, afirma que sociedade, indivíduos, Estado e internet estão imbricados, não se separam: “A internet é hoje o alicerce da sociedade e conecta os Estados além das fronteiras. É o sistema nervoso central da sociedade. Ela não apenas mudou a relação entre os que tem poder e os que não tem, dando conhecimento àqueles que não tinham conhecimento. Mas também fez todo o sistema funcionar de forma mais inteligente. Agindo contrário a essa força está a vigilância em massa criada por parte do estado”, afirma.

Segundo Assange, a onipresença da rede é o que possibilita tal vigilância. Os sistemas de telefone estão na internet, assim como os bancos e as transações são feitas pela internet. Os indivíduos se comunicam por meio dela, expõem suas vidas, seus pensamentos, sua posição geográfica. “Enfim, tudo é exposto na internet. Isso significa que grupos envolvidos na vigilância em massa realizam uma apropriação enorme de conhecimento. Esse é o maior roubo da história”, diz o ativista.

E é também contra isso que Assange se dedica. Em 2011, o WikiLeaks  publicou o Spy Files, uma série de documentos com informações sobre um “sistemas de interceptação de massa”, em que várias empresas de inteligência vendiam a governos tecnologia para vigilância de pessoas. Dá uma olhada no mapa que mostra as indústrias ligadas à vigilância.

Com argumentos como a melhoria no fornecimento de serviços ou maior segurança, a coleta de informações vem sendo justificada, mesmo que para tal, seja necessário pôr de lado o direito à privacidade. Em seu artigo “Vigilância tecnológica, bancos de dados, Internet e privacidade”, o advogado Marcel Leonardi explana sobre o assunto:

O uso das informações é justificado por organizações privadas como forma de melhorar seu processo interno de tomada de decisões em todos os aspectos, da contratação de empregados à concessão de crédito. Os tomadores de decisões utilizam-se de dados pessoais para justificar suas posições perante sua empresa ou seus superiores. De outra parte, quando uma empresa de comércio eletrônico mantém um registro dos produtos adquiridos pelo consumidor, justifica sua conduta como sendo verdadeira prestação de um serviço, informando-o sobre outros produtos que podem ser de seu interesse, ainda que o consumidor não o tenha solicitado e que tal serviço, “por coincidência”, ajude a empresa a vender mais produtos.

Tanto as empresas quanto os governos justificam a coleta de informações como fator preponderante para o fornecimento de melhores serviços – combate ao crime mais eficiente, governo mais organizado, serviços mais rápidos, boas relações de consumo, menores custos e assim sucessivamente. Não se nega que, em linha de princípio, tudo isto seja benéfico. Ocorre que a privacidade é geralmente colocada de lado em tais situações, sob o argumento de que não há nada de maléfico ou danoso na coleta e troca de informações, e que seus benefícios justificam sua própria existência.

Para saber mais sobre o assunto, indicamos a leitura do artigo WikiLeaks: quem lucra com a espionagem digital, de Bruno Fonseca, Jessica Mota, Luiza Bodenmüller e Natalia Viana.

Atualmente vivendo na embaixada do Equador em Londres, Assange recebeu asilo político em 2012, após a Suprema Corte do Reino Unido confirmar sua extradição à Suécia, onde é acusado por crimes sexuais. Assange havia sido preso em 2010, após negociar sua entrega com a polícia britânica.

Fundador do site WikiLeaks, Julian Paul Assange é jornalista, nascido na Austrália, no ano de 1971. Em seu livro Cypherpunks – Freedom and the Future of the Internet*, publicado no Brasil pela Editora Boitempo, sua pequena biografia o apresenta como: editor-chefe do WikiLeaks, ganhador de prêmios como o Amnesty International New Media Award em 2009 e o Sydney Peace Foundation Gold Medal, o Walkley Award for Journalism e o Martha Gellhorn Prize em 2011, entre outros. Criador de inúmeros projetos de software alinhados com a filosofia do movimento Cypherpunk, inclusive o sistema de criptografia rubberhose e o código original para o WikiLeaks.

O WikiLeaks é uma organização sem fins lucrativos, que tem por objetivo a divulgação na internet de conteúdos importantes e sigilosos. Informações referentes a temas de diplomacia, espionagem e inteligência, corrupção, finanças, censura e tecnologia de filtragem de internet, histórias de guerras, assassinatos, tortura e detenção, sobre governos, comércio e transparência corporativa, supressão da liberdade de expressão e liberdade de imprensa, etc.

Fundado oficialmente em 2007, o WikiLeaks ainda desenvolve tecnologias para dar suporte às suas atividades, disponibilizando às suas fontes anônimas, meios de alta segurança, fortificados por tecnologias de ponta de informação criptográfica, para que sejam enviados os materiais. Estes, quando recebidos, são analisados pelos jornalistas da organização, que verificam e escrevem a notícia sobre os conteúdos em questão, descrevendo sua importância para a sociedade.

Assange entre em uma guerra pela liberdade na rede, pela transparência que contribui para a redução da corrupção e o fortalecimento de democracias. A WikiLeaks está baseada nos princípio da informação livre, da liberdade de expressão e de publicação de mídia. “O grande presidente americano Thomas Jefferson observou certa vez que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Acreditamos que a mídia jornalística tem um papel fundamental nesta vigilância, afirmam em seu site.

Da série “O Mundo Amanhã“, uma parceria do WikiLeaks com a Agência Pública – Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo, separamos a sétima entrevista feita pelo Julian Assange, com ativistas dos movimentos Occupy de Londres e Nova York, sobre as origens, as propostas e os resultados das manifestações.

Dá uma olhada:

Há aqui talvez uma contradição. Ela reside na potencial liberdade que nos é dada pela Web 2.0. O tempo todo falamos desse espaço descentralizado, democrático. Não é uma mentira, estamos livres, ao menos mais livres. Mas estamos sendo monitorados a todo tempo. Essa nossa liberdade é “zelada”.

* Click aqui e leia a edição em português do livro Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet.

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