Hackear(te)!

Existem muitos projetos de arte e tecnologia, interligados com a arte contemporânea, marcados pelo uso e desenvolvimento hacker de dispositivos, interfaces, sistemas, redes, programas e processos.

Os hackers, por explorarem os sistemas e as formas de expansão das suas capacidades, tornam-se opostos aos demais usuários que necessitam do mínimo aprendizado para executar tarefas, e dos cientistas, que teorizam antes de iniciar qualquer programação. Eles escapam da rigidez de fórmulas predeterminadas, tornando-se coautores, em lugar de autores exclusivos dos programas. Sendo assim, a arte torna-se cada vez mais livre e reprogramável, pois tem o caráter de recombinação por estas explorações de possibilidades em contra partida do que se está sempre posto e previamente estabelecido.

O músico Larry Polansky da Faculdade de Dartmouth afirma que “Tecnologia e arte estão intimamente relacionados. Muitos músicos, artistas de vídeo, artistas gráficos, e até poetas que trabalham com tecnologia sabem—projeta-la ou usa-la— se consideram parte da ‘comunidade hacker.’ Artistas de computador, como hackers não artista, muitas vezes se encontram nas margens da sociedade, desenvolvendo estranhos usos, inovadores das tecnologias existentes.”

Alguns artistas hackers criam arte escrevendo código de computador, e outros, através do desenvolvimento de hardware. Alguns criam com ferramentas de software existentes, tais como Adobe Photoshop ou GIMP.

O hacker e artista, Jay Salvat, recriou a Mona Lisa utilizando CSS com mais de 7,5 mil linhas de código, ele usou milhares de sombras que foram montando uma espécie de mosaico, que resultaram em uma versão bastante competente da pintura.

Outro exemplo é o do artista hacker David Huerta que criou uma mixtape criptografada, com uma “trilha sonora para o Estado de vigilância” e enviou para o NSA que, por sua vezz, não conseguirá ouvir a tal mixtape, já que ela foi encriptografada com um algoritmo baseado em chaves. Mais detalhes aqui.

Em suma, “a experiência social e os sistemas de produção estão cada vez mais interconectados e dependentes das tecnologias digitais. A arte mergulha nessa conjuntura mundial, e sua criação e difusão passam a ser sustentadas ou influenciadas pela escrita mutante e interativa do código algorítmico. De modo mais amplo, o caráter processual e colaborativo da programação tecnológica dá impulso a uma estética de caráter relacional, que adota as relações humanas, o convívio e os contextos comunitários como interstício para a ocorrência de encontros e desvios geradores da forma” como explica Daniel Hora, mestrando do Programa de Pós-Graduação em arte da Universidade de Brasilia, em seu texto “Práticas e ideologias do “hackeamento” nas artes visuais”.

Hacktivismo e Ciberativismo

Hackers são pessoas com conhecimentos técnicos em informática que buscam a todo momento desenvolver novas maneiras de processamento de informação e comunicação eletrônica. Eles são programadores de computador que solucionam problemas através de métodos não convencionais e suas atividades, normalmente, não são autorizadas. Para Steven Levy, no livro “Hackers: Heroes of the Computer Revolution”, mais do que transgressores de sistemas, os hackers promovem, em sua maioria, a disseminação de conhecimento e a livre circulação de informação. Ao fazerem novas descobertas eles compartilham o conhecimento adquirido na rede, portanto a função dessa cultura na construção da internet é essencial, sendo que, através do compartilhamento de suas descobertas e comunicação livre, fomentam a inovação tecnológica.

A termo “Hacktivismo” é utilizado para associar ativismo politico e desobediência civil a atividades de hacking. Devido as crescentes ocorrências ativistas na internet, impulsionadas e paralelas ao avanço tecnológico dos processos comunicativos da rede, fez-se necessário entende-lo como uma das tipologias do ciberativismo.

Apesar de possuírem finalidades e motivações em comum, a forma de agir afim de alcançar seus objetivos é distinta, enquanto o Ciberativismo atua dentro da lei o Hacktivismo utiliza técnicas de transgressão. Ambos são fenômenos sociais complexos que ganham várias formas e se expandem em conjunto com a internet.

 

Somos todos ciborgues!

“Eu gostaria de dizer a todos que vocês são, na verdade, todos ciborgues, mas não os ciborgues que vocês imaginam. Vocês não são o Robocop ou exterminador do Futuro, mas vocês são ciborgues toda vez que olham um computador ou usam os dispositivos do seu celular”.

Quem diz isso é a antropóloga americana Amber Case, que estuda as nossas formas de interação com a tecnologia.  Segundo Case, isso ocorre porque passamos a utilizar de componentes externos para nos adaptarmos melhor aos ambientes. Usamos, por milhares de anos, e ainda hoje, ferramentas para modificar e amplificar o nosso próprio eu e de repente tudo isso se mistura.

Donna Haraway, no seu “Manifesto Ciborgue – Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX”, define ciborgue como “um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção”.

Toda essa transformação ocorre dentro do ciberespaço, onde se cria novas formas de convivência, e mudanças nas dinâmicas sociais. Esse lugar descentralizado redimensionou as formas de organização dos movimentos sociais, ampliou os espaços de luta e deu margem ao surgimento de novas formas de ativismo. Foi assim com o movimento de mulheres, em todo o mundo.

“Uma aliança entre as mulheres, a maquinaria e as novas tecnologias”, é como Sadie Plant define o ciberfeminismo. O ciberespaço surge como um território político, onde os discursos tornam-se públicos e são ouvidos, onde se constrói redes de comunicação entre mulheres, na luta pelo fortalecimento do movimento feminista.

A rede de computadores se torna um epicentro de mudanças. Espaço para discussões sobre as relações de gênero, troca de experiências, busca pela simetria de poder.

Haraway afirma que o seu mito do ciborgue justamente “significa fronteiras transgredidas, potentes fusões e perigosas possibilidades – elementos que as pessoas progressistas podem explorar como um dos componentes de um necessário trabalho político”.

Comunicação, política e internet: uma tríade cada vez mais ruidosa

Quem nunca ouviu (geralmente no meio de um discurso inflamado) a fala “a tv aliena o povo!”? Bem, desde que equipamentos que servem como meio de comunicação de massa passaram a fazer parte do dia a dia da maioria das pessoas, o uso político dessas ferramentas é debatido e motivo de preocupação para uns, entusiasmo para outros.

Política e meios de comunicação de massa sempre caminharam lado a lado, sendo que a tecnologia da informação passou a ser aliada imprescindível atuando no desenvolvimento dos meios, mais precisamente para que o uso político deles fosse mais abrangente e eficaz. Na II Guerra Mundial, por exemplo, os mídias serviam tanto para propaganda ideológica quanto para informação, o que não difere do quadro atual, principalmente se falamos dos meios tradicionais.

familia antigua radio

Família ouvindo rádio na década de 40

Então, o que mudou com a chegada da internet e suas redes? Bem, com isso o interlocutor inflamado do primeiro parágrafo não contava: o formato unilateral de produção e difusão de informações das mídias tradicionais não é mais o único. Com alcance cada vez maior, a internet tem sido palco e ferramenta política para as mais variadas idéias e intenções. E nessa organização fundamentada em diálogos horizontais, movimentos de teor social e político podem se espalham, dando protagonismo a quem se indignava sozinho ou reivindicava a partir de lideranças estabelecidas, como no modelo político-partidário. O sociólogo espanhol Manuel Castells, que discorre sobre o poder político construído no espaço da comunicação, usa o termo “autocomunicação de massas” para descrever o fenômeno do uso das redes sociais da internet sendo usadas não somente como meio de comunicação, mas como um novo espaço público onde os atores são coletivos. Ainda assim, movimentos de cunho sociopolíticos que surgem e se difundem via internet precisam do interesse primordial dos seus atores. Um individuo desinteressado pelo que acontece na sociedade poderá apenas transpor para a internet sua alienação, afinal, as possibilidades de uso da internet ainda são fomentadas pelas escolhas e conteúdo (ou falta de) off-line.

Recomendamos o vídeo abaixo da conferência de Castells no projeto “Fronteiras do Pensamento Brasken”, de 2013, onde ele divulga seus estudos e conclusões sobre temas como ocupação dos espaços públicos, interação constante entre o físico e a internet:

FireChat: O Revolucionário Aplicativo da Comunicação Offline nos Protestos em Hong Kong

A revolta dos guarda-chuvas em Hong Kong é o protesto que está tomando conta da mídia no momento. Milhares de jovens ocuparam as ruas em busca de uma política mais independente de Pequim e mais democrática. Os protestos começaram em setembro e estão causando distúrbios econômicos e políticos na região.

Os guarda-chuvas têm sido usados como símbolo de resistência ao spray de pimenta, lançado indiscriminadamente pela força policial contra os manifestantes.

É muito nítida a semelhança com os protestos que aconteceram na primavera árabe. Protestos nos quais a sua grande maioria jovens, reivindicam mais liberdades. Entretanto, a semelhança entre os dois não se encontra apenas nos ideias, mas também na execução e propagação. Os dois tiveram uma grande aliada: a tecnologia. Estes protesto nunca teriam tomado proporções tão gigantescas sem esta fiel ferramenta. Os governos reconhecem a sua importância, por isso tanto no mundo árabe, como agora em Hong Kong, tentam enfraquecer as manifestações limitando o uso à internet. Ou seja, cortando a principal fonte de comunicação e organização dos protestantes. Eis que algo revolucionário surge: um aplicativo de mensagens offline.

FireChat é um aplicativo revolucionário pois permite a comunicação sem o uso da internet.Ele consegue transmitir mensagens para usuários relativamente próximos apenas com o Bluetooth ativado

Esse aplicativo tem tido um papel crucial nos protestos. Ao prescindir de internet para se conectar, e até mesmo de sinal da companhia telefônica, exige apenas o Bluetooth ativado para envio e recebimento de mensagens. Ao funcionar com o Bluetooth, ele acaba tendo uma certa delimitação geográfica, porém sua proposta inicial é funcionar como uma corrente, ou seja, mensagens sendo enviadas e transmitidas a todos os usuários em pleno vapor, assim perdendo sua limitação espacial e alcançando o grande público.

Como o aplicativo oferece a opção de anonimidade, ele é um excelente mecanismo de divulgação de informações dissidentes, porém este lado da anonimidade possibilita também a divulgação de falsos dados, podendo até mesmo enfraquecer o movimento e gerar discórdias. Percebendo isto, o aplicativo executou uma atualização para Android (a nova versão para iOS estará disponível em pouco tempo) que possibilita aos usuários serem verificados (eles recebem uma marca vermelha de que são usuários verificados) e criar um perfil, acessível a todos, dando detalhes sobre dados pessoais.
As contas verificadas estão sendo controladas com muito cuidado desde a sede do aplicativo, na Califórnia, sendo a maioria delas até agora disponibilizadas para jornalistas. Os desenvolvedores do aplicativo esperam que com essas mudanças o aplicativo consiga ser mais crível para seus usuários.

Desde que ganhou força, há duas semanas, o aplicativo já foi baixado por cerca de 500.000 pessoas na região de Hong Kong e mais de 5.1 milhoes de mensagens foram trocadas.

Jovens tomam as ruas de Hong Kong com seus smartphones. Conectados ou não.

Rede: espaço de possibilidades

Você já ouviu falar em Nomofobia? Tem alguma ideia do que seja?

Lamento informar, mas se você não tem nomofobia, conhece alguém que tenha. Pode apostar!

A nomofobia é uma doença nova, que caracteriza pessoas que não conseguem ficar muito tempo sem seu aparelho celular. Se identificou? Talvez? Nunca bateu aquela angústia depois de ter percebido que ficaria o dia inteiro longe do seu smartphone porque tinha esquecido ele em casa, mas já era tarde demais pra voltar e buscar? Ou quando a bateria vai embora no momento mais inoportuno (que seria em qualquer hora)?

Pois é meu caro ou minha cara, infelizmente, ou talvez não, a nomofobia atinge hoje uma enorme parcela da população mundial. Tá todo mundo conectado, o tempo todo. Na fila do banco, no aeroporto, na mesa do restaurante, sozinho ou acompanhado.

Por acaso você não já ouviu dos teus pais, ou de alguma tia, reclamações de como é irritante tentar conversar enquanto você fica conectado o tempo inteiro? Ou talvez você esteja do outro lado, do lado de quem se irrita por “não ter atenção” quando quer falar.

A gente vive escutando como isso é uma coisa ruim para as relações interpessoais. Mas até que ponto esse afastamento do mundo real é verdadeiro? O fato de você estar conectado não quer dizer que você esteja desligado do mundo, pelo contrário. Você está ligado simultaneamente a vários mundos, com diversas pessoas diferentes, descobrindo um monte de coisas a todo instante.

Mas aí alguém diz: “Estamos falando das relações face a face, isso está se perdendo nesse ciberespaço, as pessoas já não se comunicam mais entre si”.

Olha, não é bem por aí… O que a gente percebe é uma reconfiguração no modo de se comunicar. As pessoas estão cada vez mais interagindo umas com as outras. Pessoas têm acesso a conteúdos informativos de qualquer lugar, feitos por qualquer pessoa, sobre qualquer assunto. Está tudo ali, a um click. Isso porque, a rede é global, ela possibilita a quebra de barreiras geográficas, sociais, etc. Você pode estar aqui no Brasil, falando com um amigo do Quirguistão, sobre a revolta do ‘guarda-chuva’ que está ocorrendo nas ruas de Hong Kong.

Não há mais um centro monopolizador e sim um espaço descentralizado, onde todos podem construir modelos de comunicação, transformando as pessoas que fazem parte dessa rede, em cada vez mais ativas. As novas tecnologias informacionais modificam as formas de expressão e, por conseguinte, as formas de recepção. Dessa forma, surge uma mudança nos modos de pensar a sociedade como um todo.

Abriu-se uma janela que possibilitou uma reorganização daqueles que antes não tinham onde evidenciar sua fala. O sociólogo espanhol Manuel Castells, em entrevista sobre as mobilizações que ocorreram em 2011, por diversos países do norte da África e do Oriente Médio – a chamada Primavera Árabe -, diz que: “a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreras da censura e repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente”.

Ainda segundo Castells, “as raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de “auto-comunicação de massas”.

A internet e os novos novos modelos de comunicação

A distância entre mundos real e virtual, que tanto suscitou debates no início da popularização do acesso à internet e suas redes, a cada dia parece mais obsoleta, contrariando previsões apocalípticas de quem acreditava que a atuação no mundo virtual afastaria as pessoas da realidade. Porém, quando o assunto é engajamento sociopolítico ou posicionamentos pessoais nas redes com essa temática, essa divisão vem à tona no sentido da validade entre teoria e prática, ou exposição de pontos de vista versus efetividade.

Quem acompanha as redes sociais, todos os dias se depara com inúmeros posts e comentários sobre temas de relevância social, comportamental e política. Nesse meio, muitas pessoas expõem suas idéias e pensamentos, se posicionam a respeito de situações reais, e, por vezes geram discussões cujas proporções não se pode mensurar. Nesse cenário, os grupos de comunicação que antes eram os que levantavam temas e suscitavam debates quase que de forma exclusiva, agora são influenciados com frequência por temas que surgem de forma espontânea entre usuários das redes e cuja repercussão já não depende obrigatoriamente da mídia tradicional (Tv, rádio, jornais). Num universo no qual o indivíduo pode criar sua própria mídia e publicar seus próprios conteúdos e conta com a possibilidade de interação espontânea, o papel da mídia tradicional foi resinificado, mas a informação continua sendo o mote do usos das redes, de maneira que os grupos que fazem a mídia tradicional não desapareceram: muitos usam a internet como mais um meio de transmitirem informações e outros migraram definitivamente para o formato virtual, além de diversos canais de informação já criados diretamente para o modelo virtual.